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CADERNO ABERTO

pensamentos fora de mim.

Escrevo porque observo. Observo porque existo. Manifesto o que sinto.
I.

Coração

Um lugar muito ruim de morar
é no coração.

Quem entra
recebe tudo.

Átrios e ventrículos em
sobrecarga.
Camadas demais:
Endocárdio em atrito,
Miocárdio em exaustão,
Epicárdio falhando.

As válvulas, não impedem
apenas regulam o colapso.

Aqui tudo pulsa
além do limite.

Aviso:
Coração não é abrigo.

II.

Seres dicotômicos

A grande dicotomia da vida
moderna
É amarmos pessoas avessas a
nós mesmos.

Repare: não disse “diferente”.
Disse, avesso.

O diferente amplia.
O avesso desloca,
te vira ao contrário.

Amar o avesso
exige aceitar não compreender.

E eu me contento
com essa incapacidade.

III.

Caneta BIC

A vida é um caderno em branco.

Nossas ações,
caneta BIC.

Cada risco fica
Um círculo puxa outro.
A página se enche.

Não se apaga.
Não se reedita.

Mesmo o branquinho
não apaga
só denuncia a tentativa.

Assuma os riscos
dessa folha que já não é branca.

Vire a página.
Ainda há espaço
para outro traço.

IV.

Licença para entrar

Eu gosto da porta entreaberta.
É um convite silencioso para
entrar.

Abro devagar,
olho em volta,
entendo onde estou.

Às vezes resolvo não ficar.
Agradeço pelo convite
e me retiro.

Mas há vezes
em que entro sem cuidado,
sem expectativa,
e me surpreendo.

Paro,
olho,
e fico.

V.

Questionamentos questionáveis

Um dia, ela me perguntou:

Por que não jogamos sinuca?
Eu respondi que não sabia.

Por que não vamos a um
restaurante?
Eu disse que estava sem fome.

Por que não viajamos?
Eu falei que estava chovendo.

Meio irritada, ela insiste:
Tá, então o que você está a fim?

Eu respondo:
de você.

VI.

Os olhos

Os olhos não mentem.
Nem podem.

A boca pode.
A mão pode.
O corpo, até que pode.

Mas os olhos,
jamais poderiam.

Eles entregam
o que a gente esconde.

Bom,
era o que eu acreditava.

Até que os olhos dela
mentiram pra mim.

VII.

Hipocrisia

Não vejo problema na hipocrisia, tal
como assumo
Sou um hipócrita.

Faço o que disse que não faria
Gosto do que dizia não gostar.

Em lugares cheios de certezas
e em salas abarrotadas de dúvidas,

Eu me sento em uma poltrona
e brindo com a contradição de ser.

Afinal,
que pena seria continuar sendo
quem fui
só por medo de assumir quem sou.

Vou me contradizer quantas vezes
preciso for.
Serei hipócrita quanto precisar que
seja.

Meu medo não é mudar de opinião.
Meu medo é não ser eu.

VIII.

Fracassar

Um fato sobre a vida:

você vai fracassar
assim como fracassou
da mesma forma em que
fracassa

Agora, uma dúvida sobre a vida:

fracassar no que se ama
é melhor
do que fracassar
no que não se ama?

IX.

Mãe

Em uma outra realidade
eu nunca nasci.

E por isso
a minha mãe nunca teve que abandonar
os sonhos dela por mim.

Nesse lugar,
ela fez o que queria
e não aquilo que esperavam dela.

Ela navegou por mares desconhecidos,
dançou sob as estrelas
e o brilho dos seus olhos
não tinha a sombra do cansaço.

E ela foi muito,
muito,
muito feliz.

Mas como nessa realidade
eu existo,

hoje eu tô saindo com blusa, tá mãe?

X.

Desistir

Você deveria desistir,
seus sonhos não irão se realizar.

Às vezes queria muito que
chegasse alguém e me
afirmasse isso.

Não ficaria bravo, nem chateado.
Na realidade, eu ficaria aliviado!

Se eu já sei que não vai dar
certo,
eu não preciso me preocupar em
realizá-los.

Mas, e se der certo?
e se funcionar?

A esperança é a última que
morre,
mas é a primeira que eu gostaria
de matar.

XI.

A amada e o poeta

Há uma lei entre os poetas:
suas obras precisam de uma
musa.

Dante com Beatrice.
Vinicius com Helô.
Neruda com Matilde.

E é claro que não estou de fora.

Murillo com...

E tantos outros que escreveram
sobre suas paixões.

Correspondidas ou não.

A questão é que a escrita
envolta em paixão
é quente

Mas em São Paulo faz frio
e eu tenho escrito
de casaco.

XII.

Neologismo

Empaixonado:
substantivo masculino.

Significa estar apaixonado
no presente momento.

Não dura depois,
e nem precisa.

É neste momento,
não naquela noite.

Juntos no agora.

Não é possível conjugar essa
palavra
no futuro
ou no passado.

Ela só existe
quando nos encontramos
e nos apaixonamos.

XIII.

Emprego

Segunda-feira um amigo que é estagiário
me ligou, contando que está horrível o
estágio, que a galera trata ele como um
idiota, desabafou.

Terça-feira, um outro amigo, que é
analista em um banco me ligou, dizendo
que não aguenta o chefe dele, que o
chefe é um babaca, controlador, também
desabafou.

Quarta-feira, me ligou um amigo que é
coordenador de marketing, ele disse que
está prestes a ter um burnout, porque o
time dele é super incompetente, e ele
precisa fazer tudo, também desabafou.

Quinta-feira, eu cortei o cabelo com um
amigo que montou uma barbearia, ele
disse que empreender no brasil é uma
loucura, muito imposto pra pouco lucro,
sem tempo pra nada, desabafou.

Já na sexta-feira, eu cansado de escutar
reclamações desses amigos, chamei um
amigo que não trabalha pra sair, ele por
sua vez disse:
Não dá, não tenho dinheiro.

XIV.

Eternidade

Minha ambição é me tornar
eterno,
ao ponto de trocarem o
nome da minha rua para o
meu.
De lembrarem as minhas
últimas palavras.

Ontem não aconteceu
nada.
Hoje eu estou parado.
Mas aposto no amanhã.

O preço da eternidade
costuma vir com o fim,
e eu ainda não tenho a
minha frase.

XV.

Beijos

Eu já tive muitos,
você também.

Desses muitos,
poucos significaram algo.

O seu se encontra
nesses que tiveram
algum significado.

Quando nossos lábios se encontram,
meu corpo esquenta.

Quanto mais esquenta,
mais nossos lábios
se procuram.

Chega a tal ponto
que a temperatura de Planck
parece pouco
perto do calor
que há ali.

No fim,
de todos os beijos possíveis,
eu ainda escolheria
repetir o calor dos seus.

XVI.

Nome composto

Teu gosto,
teu cheiro,
que sabor.

Teu toque,
tua voz,
a risada!

Você, inteira,
sem faltar nada.

Quero me encontrar
no teu raso,
que de raso
não tem nada.

por enquanto, fim.

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